16 mil alunos deixaram escolas no Ceará

No Estado, o índice de alunos que saíram da escola durante o ano letivo passou de 16,4% em 2007 para 5,1% no ano passado. Embora a taxa de abandono esteja em queda, o problema é complexo e se reflete em vários aspectos da vida

“Eu passava um bom tempo sem ir. Eu não sei explicar. Não dá vontade de ir para a escola”. As frases ditas por Wagner Menezes, 20 anos, aluno do ensino médio da rede estadual do Ceará, são duras, têm grande peso e muitos significados. Evidenciam um dilema pessoal, mas são, sobretudo, reveladoras de um grave problema coletivo: o abandono escolar. Wagner, como outras centenas de estudantes, deixou a escola sem concluir o ano letivo. Felizmente, retornou. Hoje, cursa o 3º ano do Ensino Médio.

Manter-se assíduo não é fácil, assim como também não é simples a sua realidade. Conflitos familiares, necessidade de trabalhar, problemas emocionais, falta de sentido no modelo escolar… Fatores combinados que se agigantam na trajetória do jovem estudante.

No Ceará, a taxa de abandono na rede estadual em 2018 foi de 5,1%. Em um universo de 329.408 matrículas no Ensino Médio, cerca de 16 mil alunos abandonaram a escola no ano passado. Os números não traduzidos pela matemática ilustram os problemas que ultrapassam a juventude e se refletem por toda a vida.

Fatores

Em 2015, Wagner reprovou. Em 2017, parou de estudar. A perda da avó desorganizou os planos e os sentimentos. “Foi quando eu perdi minha avó. Foi quando a famosa depressão entrou na minha vida. Eu descobri que eu tinha. Eu me mutilava muito. Foi o pior ano da minha vida e foi quando eu meio que comecei a sair da escola. Justamente naquele ano, parei de estudar e perdi meu emprego”, relata.

Em 2018, Wagner mudou para a Escola Clóvis Beviláqua, no Centro de Fortaleza. Na instituição, que tem Ensino Fundamental (8º e 9º ano) e Médio (1º, 2º e 3º), há 480 alunos. O índice de abandono é alto. Em 2016, chegou a 20%. Desde de 2017, se mantém em 12%. A situação se repete em outras instituições da rede estadual. Tanto o cenário de infrequência, como, felizmente, a melhora dos índices. De modo geral, o Ceará tem baixos percentuais de infrequência, se comparado aos demais estados, segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc). No Brasil, a taxa de abandono foi de 6,1% no ano passado. No Ceará, saiu de 16,4% em 2007 para 5,1% em 2018.

Para Wagner, a permanência na escola é caminho dificultoso, mas, ausentar-se dela é ainda mais prejudicial. O acúmulo de faltas, garante ele, não é injustificado. “Se a pessoa tá faltando muito, logo tem um problema na vida dela. Ela não falta porque em si ela quer. Ela pode estar sofrendo bullying, essas coisas”. O jovem que diz “amar inglês e gostar de português e geografia” encarna um conjunto de adversidades há anos, identificadas por estudiosos do histórico problema do abandono escolar no País.

“Tem uns 2 ou 3 alunos que faltam quase todos os dias na minha sala”, relata Lucas Bonfim, 14 anos, estudante do 9º ano da mesma escola. “A gente tem um grupo da sala, aí vai nesse grupo ou no privado e pergunta por que a pessoa faltou e ela fala o motivo. Um amigo nosso faltou uma semana porque ele não tinha o dinheiro da passagem”, acrescenta. Trabalho, desestrutura familiar, ausência de renda, reprovação, falta de identificação com a escola e, no caso das mulheres, a gravidez precoce, são fatores preponderantes para a permanência desse gargalo.

Fonte: Diário do Nordeste

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